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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Competição em fotografia subaquática

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Terça-Feira, 23 de Mai 2017 . 21:29

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Competição em fotografia subaquática

 

Como em qualquer outra actividade, a competição pode ou não fazer parte dos horizontes do praticante. Pode ser algo desejado mas não tentado por simples timidez ou receio dos resultados. Pode ser a única razão para se continuar a fotografar. Pode ser encarada com paixão ou com ódio. Pode ser uma faceta a evitar ou a criticar. Seja o que for, é sem dúvida uma aproximação diferente ao acto de fotografar e marca uma viragem na carreira de qualquer fotógrafo. Após a primeira competição, nada será como dantes, os objectivos mudam, o modo de fotografar altera-se e de um modo geral dá-se uma aceleração na curva de aprendizagem, abrindo-se novos horizontes.

 

Quer se goste ou deteste, uma coisa é inegável: a competição obriga a uma atitude mais produtiva e expõe as imagens à crítica dos outros. O resultado pode ou não ser agradável mas constitui uma das formas possíveis de sabermos em que nível de qualidade se situam as nossas imagens. Inconsciente da história por detrás da imagem, ignorante do esforço necessário para a produzir e livre de tendências subjectivas ao equipamento usado, o júri deve avaliar cada imagem por aquilo que ela de facto é: um instantâneo captado em determinado momento, num determinado lugar para revelar um determinado acontecimento. Quantas vezes o facto de determinada foto ter custado muito tempo/dinheiro/esforço físico a torna, aos olhos do fotógrafo, sobrevalorizada. Embrenhado nas recordações desse instante, o véu da memória constitui um obstáculo para a avaliação nua e crua desse instantâneo.

 

Pedir a um amigo ou familiar a opinião sobre uma fotografia, é uma hipótese que, apesar de válida, peca por dois problemas quase inevitáveis: a falta de conhecimento em matéria de fotografia subaquática dessa pessoa e a sua ligação emocional com o fotógrafo. Em quantas famílias é que existe mais que um aficionado pela fotografia subaquática? Apesar de o agregado familiar poder conter outros fotógrafos (“terrestres”) e sendo a sua experiência e conhecimentos uma mais valia que não deve ser desprezada ou minorada, a verdade é que a fotografia subaquática possui condicionantes próprias que só outro fotógrafo subaquático sabe avaliar correctamente. Um amigo com conhecimento de causa também nos poderá dar a sua opinião mas aqui é quase inevitável cair no segundo problema. É que a sua amizade pode interferir, mesmo que subjectivamente, com a sua opinião. E quem é que quer pedir opiniões a pessoas com quem não se simpatiza? E ainda que o fizéssemos, até que ponto é que essas opiniões vindas de “pessoas menos queridas” seriam tidas em conta?

 

A verdade é que o modo como pedimos essa tão valiosa opinião denota quase sempre a nossa própria ideia acerca da imagem em causa. É assim, somos humanos e como tal as nossas palavras denotam sentimentos e, num contexto informal, esses sentimentos são facilmente interpretados pelo nosso interlocutor. Quando se participa numa competição, o júri é alheio a todas as questões pessoais e, idealmente, nem sequer sabe de quem são as imagens que deverá pontuar. Não sabe se a foto implicou um esforço sobre-humano, se foi fruto do acaso ou se é uma no meio de muitas outras idênticas. O que ele vê, é o instante e o modo como ele foi captado pelo fotógrafo. É a imagem em si que deve transmitir as emoções, o modo de ver do fotógrafo. Impacto, harmonia, força, unicidade, são adjectivos que devem caracterizar uma imagem a ser bem cotada.

 

Cabe aqui umas palavras sobre o júri em si. Infelizmente nem sempre todos os jurados correspondem ao que seria minimamente desejável. Só um fotógrafo subaquático consegue quantificar as dificuldades que uma fotografia pode encerrar. Só ele compreende e sabe ver aquilo que é uma falha técnica do fotógrafo ou o que é uma condicionante inevitável do meio. Só um jurado fotógrafo (subaquático, claro) sabe destrinçar o que é “saber” do que é “sorte”. Sendo a fotografia subaquática uma variante da fotografia de natureza e/ou de vida selvagem, o factor “sorte” tem uma palavra a dizer. Quantas vezes não ouvimos outros mergulhadores dizerem que viram algo de extraordinário, enquanto que nós, no mesmo mergulho e no mesmo local nada vimos! Imagine-se os desequilíbrios que uma situação idêntica pode gerar numa competição de fotografia subaquática. Cabe aos jurados tentar “separar o trigo do joio”, avaliando o mais correctamente e justamente possível.

É claro que sendo a fotografia uma arte altamente subjectiva, a sua avaliação não o é menos. Ora um patrocinador ou outra pessoa qualquer sem conhecimentos provados neste tipo de fotografia, só tornará toda a situação mais aleatória. Como se justifica a um participante que estudou a lição, que praticou ao longo dos anos, que investiu em equipamento e em viagens, que, sem mais nem menos, as suas imagens vão ser avaliadas por uma pessoa que o mais perto que esteve do mundo subaquático foi na última visita ao Oceanário?! É claro que os jurados não se auto-propõem para o cargo nem são escolhidos pelos concorrentes. É a organização a responsável pela escolha e é ela que deverá ter o cuidado de dignificar a tarefa dos fotógrafos e de creditar a própria competição, através da escolha cuidada do júri.

 

Dependendo da competição em causa, não basta fotografar correctamente o banal para se aspirar a um bom resultado. Aqui não há regras ou dogmas. Quando se passa a fronteira do correctamente exposto e do “como deve ser” entra-se no domínio do risco calculado: quanto mais se arrisca, tanto mais se pode ganhar…ou perder!

 

A filosofia empregue por cada um numa situação de competição pode variar entre o completamente tradicionalista e o arrojado extremo. Há quem opte por fotografar motivos banais, duma forma segura e muito experimentada, dando origem a imagens correctas e normalmente bem classificadas, e há quem opte por tentar uma aproximação mais inovadora e radical, apostando num rejuvenescimento das imagens batidas e vulgares. De notar que entre estes dois extremos há lugar para uma infindável gama de opções que podem ser tentadas, mas que sobretudo devem ser pensadas e ponderadas. Saber quem são os elementos do júri e qual o seu passado nesta área pode ajudar, pois o gosto pessoal dum jurado que se dedica à fotografia de baleias pode não ser exactamente o mesmo dum outro que passa grande parte do seu tempo a fotografar naufrágios.

 

Tanto num caso como noutro, é importante prestar algum cuidado na configuração do equipamento de mergulho, evitando-se a todo o custo peças penduradas (manómetros, consolas, octopus, lanternas, etc.) que para além de pouco estéticas, podem constituir um atentado ao meio marinho e à segurança do próprio mergulhador. É impressionante a quantidade de mergulhadores quer sejam fotógrafos, modelos ou simples alunos de mergulho, que andam com o octopus e/ou consola livremente pendurados sem que se apercebam das implicações a determinados níveis que tal prática acarreta. Para além de tudo o mais, prender todo o equipamento junto ao corpo, aumenta o nosso hidrodinamismo e faz, em última análise, com que o deslocamento debaixo de água seja mais fluido e fácil.

 

É na questão da ponderação prévia e da escolha correcta do caminho a seguir que reside muitas vezes o segredo duma boa classificação. Nada deve ser deixado ao acaso e a sorte deve ser relegada para os encontros fortuitos com os habitantes subaquáticos. Tudo o que é passível de ser controlado deve o ser tanto quanto possível. Muito poucas fotografias premiadas são fruto do acaso. Muitas foram repetidas antes até se chegar à perfeição. Os locais são minuciosamente batidos para revelarem os seus habituais residentes. As marés, as correntes e a meteorologia são tidas em consideração. A consulta de livros sobre a fauna local e o visionamento de filmes e fotografias da zona podem também ser um precioso auxiliar. Uma competição não é o local para se experimentar um equipamento novo ou uma técnica que não se domina. As coisas mais óbvias são por vezes descuradas: os flashes e câmaras devem ter as baterias completamente recarregadas; os cabos de sincronismo devem estar em bom estado; as ópticas e janelas das caixas bem limpas; os o’rings lubrificados; o fato deve dar suficiente protecção térmica para nos proporcionar um longo mergulho a fazer macro com conforto; o lastro deve ser o adequado; o regulador deve ser o mais fiável que temos; as barbatanas as de sempre. Nada deve falhar.

 

Quer se goste ou odeie, a competição pode ser encarada como uma escola, um degrau em direcção à maturação do fotógrafo. Graças a ela, tornamo-nos mais produtivos e exigentes. Criamos objectivos a nós próprios e tornamo-nos nos mais duros críticos do nosso trabalho. A meta, não existe. O objectivo é ir sempre além, melhorando cada vez mais e nunca desistir. Nestas andanças ninguém é sobre-humano ou sabe tudo. É a experiência, a disciplina e a vontade de aprender que sempre acabam por dar frutos. Mas todos começamos no mesmo ponto: do nada. Só depois desse primeiro passo, dessa tímida entrada no mundo competitivo, é que o fantasma se desvanece e se compreende que, afinal, mesmo os grandes cometem erros banais, que também eles pensam e agem como nós e partilham os mesmos receios e ambições. É pois o primeiro passo o mais difícil de dar…e no entanto é ele o mais importante.

 

Boas fotos!
Rui Guerra

 

 
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