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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Abertura vs. Velocidade

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Sexta-Feira, 23 de Jun 2017 . 22:35

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Abertura versus Velocidade

Num artigo anterior (“Dominando a luz…”) foi levantada a questão da escolha correcta do par abertura/velocidade. Vejamos então como escolher e quais as implicações na fotografia de ambiente.


Quando olhamos para uma fotografia duma paisagem subaquática, somos levados a percorrer com o olhar todos os meandros e pormenores que constituem a imagem em si. Achamos isso perfeitamente natural pois é assim que o nosso cérebro está habituado a construir uma imagem do meio que nos rodeia: olhamos selectivamente para as diversas coisas à nossa volta e as múltiplas imagens são processadas no nosso cérebro de modo a formar uma única mais abrangente. É esta última imagem que constituirá a nossa lembrança do local onde estivemos e é com ela que comparamos uma fotografia tirada nesse mesmo local. Ora essa fotografia deverá ter exactamente essas mesmas características: boa profundidade de campo e grande definição.


A maiores profundidades, como neste caso a 43m, é importante uma boa estabilidade, tanto da máquina como do motivo fotografado, pois a utilização de velocidades baixas é um imperativo. Deve-se também, tanto quanto possível, utilizar ao máximo um ângulo que permita destacar os elementos da imagem contra a água e “ganhar” um pouco de luz. Objectiva 20 mm, dois flashes de grande angular.

Tal como já foi explicado, é a combinação de uma certa velocidade de obturação com determinada abertura do diafragma que regulam a quantidade de luz que deverá atingir a película. É óbvio que se o orifício (abertura) for muito reduzido, teremos de o “destapar” durante mais tempo (velocidade mais lenta) para deixar passar a mesma quantidade de luz, e vice-versa. É a conhecida lei da reciprocidade.


Voltando à nossa fotografia de ambiente, queremos a todo o custo que tudo esteja perfeitamente focado (grande profundidade de campo) e que haja elevada nitidez, sem “tremidos” que prejudiquem o impacto e a definição da mesma. Ora é aqui que começa o dilema: há que optar favorecendo um dos parâmetros em detrimento do outro. Por onde começar?


O conselho que dou aos alunos que frequentam os meus cursos é: “Olhem para a vossa objectiva e coloquem a velocidade num valor igual ou próximo a 1/distância focal dessa mesma objectiva.” Se por exemplo for uma de 20 mm, seleccionaremos uma velocidade de 1/20seg. (dependendo da máquina podemos ser forçados a optar por 1/15 ou 1/30). Tenta-se assim obedecer à tradicional regra para evitar fotografias “tremidas”. Quer isto dizer que estamos limitados a essa velocidade ou que isso é garantia de se obterem imagens perfeitas? Certamente que não! Este conselho visa apenas dar um ponto de partida, uma ancoragem, para a partir dele se começarem a tomar outras decisões. Para quem está a começar (tanto em mergulho como em fotografia), uma boa opção consiste em desde logo pré-regular este valor, ainda à superfície, poupando tempo e dúvidas existenciais uma vez no fundo.


Fotografada a 30 metros de profundidade, os restos da Plataforma Mariana, nas Baleares, assentam num fundo de vasa apesar da transparência das águas que a rodeiam. Optou-se por baixar a velocidade de obturação, não se utilizando qualquer flash, o que também ajudou a criar o ambiente típico de “naufrágio”.


Quando é que se deve aumentar ou reduzir este valor? A resposta é necessariamente mais subjectiva e depende essencialmente de cinco factores:


1.

Estabilidade do fotógrafo: quando por qualquer razão não se consegue permanecer imóvel na altura do disparo (mau controlo de flutuabilidade, mar agitado, .), há que aumentar a velocidade para contrariar esse efeito;


2.

Caso o sujeito da foto se encontre em movimento (peixes, algas agitadas pela ondulação, parceiro de mergulho, etc.) quanto mais rápido ele for tanto maior deverá ser o incremento na velocidade de obturação, para tentar “congelar” o movimento;


3.

Para uma mesma velocidade de deslocação do motivo, quanto mais perto ele se encontrar, maior será a sua velocidade aparente, donde maior terá de ser a velocidade de obturação utilizada. Na realidade, tanto no caso anterior como neste, o que realmente importa é a velocidade que o motivo aparenta ter relativamente à área do enquadramento. Se um peixe se deslocar de modo a mudar de posição à razão de 20% da largura total do enquadramento em cada segundo, o seu movimento será muito mais imperceptível do que o de um outro, mais lento, mas que por estar mais próximo, percorre metade da largura da imagem no espaço de 1 segundo. É também por essa razão que a regra refere a distância focal da objectiva como factor a ter em conta, uma vez que quanto maior esta for, menor será a área enquadrada e mais visível se tornará qualquer movimento, da parte do fotógrafo ou não;


4.

O nível de luz ambiente (dependendo da sensibilidade ISO utilizada), a maiores profundidades, ao entardecer/amanhecer ou no interior de grutas, pode desde logo implicar o uso de velocidades muito lentas, podendo até ser necessário recorrer ao uso de um tripé. Pelo contrário, em locais ensolarados, a pouca profundidade e com mar calmo e transparente, é possível utilizarem-se velocidades de obturação bastante mais elevadas, facilitando tudo;


Uns dos pontos-chave desta imagem são os raios de luz que emanam de trás da parede rochosa. Para os manter é necessário utilizar uma velocidade elevada e regular a abertura em consonância. O flash é assim regulado no fim de modo a iluminar os primeiros planos e dar cor. Quanto mais regulações dispuser, tanto mais facilitada estará a tarefa do fotógrafo.

5.

Por último, talvez menos evidente mas não menos importante, é a influência do flash utilizado na escolha da velocidade. “Espera aí!” – diz você – “Mas desde quando é que a velocidade de obturação tem alguma influência na luz do flash?!”. De facto não tem nenhuma, mas também não foi isso que eu disse! O que se passa é que o flash utilizado, nomeadamente o seu Número Guia e as regulações de potência que possa ou não ter, irão condicionar a escolha da velocidade. Numa fotografia típica de ambiente, se =11 e só possuir a opção de Full e ½, muito facilmente pode acontecer que este seja demasiado potente para um equilíbrio eficaz com a luz natural disponível. É fácil concluir isto se pensarmos que no meio subaquático, partindo da aconselhada velocidade de 1/20 do exemplo acima, as aberturas utilizadas com uma película de ISO 100 são frequentemente f/8, f/5.6 ou até menos. Daí a necessidade de que, quanto mais fraca for a luz ambiente (maior profundidade, água suja, etc.), mais “fraco” deverá ser o flash ou mais regulações de potência deverá ter. Caso isto não seja possível, torna-se necessário afastar muito o flash (o que nem sempre é prático) ou fechar mais o diafragma e, consequentemente, utilizar uma velocidade mais lenta.


Neste, como em tantos outros exemplos de fotografia de ambiente, é importante uma boa profundidade de campo, de modo a colocar toda a imagem num determinado contexto. O espirógrafo em primeiro plano encontrava-se a cerca de 40 cm ao passo que a entrada da gruta e o mergulhador estavam a mais de 10 m de distância. A utilização de uma objectiva de 20 mm foi aqui essencial para se conseguir este efeito, permitindo a utilização de f/11 com 1/15 seg.

Muito bem, então, aparentemente, deve-se utilizar sempre uma velocidade elevada para não haver problemas de “movimento” enquanto se tira a fotografia, certo? Errado! Nem sempre uma velocidade elevada é condição para uma boa imagem. Uma velocidade baixa que permita o registo de algum movimento pode ser o passaporte para uma imagem cheia de impacto e personalidade. Por outro lado, uma velocidade elevada implica uma maior abertura (menor número f) com nefastos efeitos na profundidade de campo e com consequências diversas, consoante a situação e o equipamento utilizado.


Independentemente do tipo de máquina, uma consequência óbvia é que nem toda a imagem aparecerá devidamente focada o que, numa “foto de ambiente”, é manifestamente contrário ao propósito da mesma. Mesmo no caso da técnica CFWA (close focus wide angle), em que um só motivo preenche o primeiro plano com um mergulhador ao “longe” para dar a sensação de tridimensionalidade, é necessário que este último também se encontrar focado.


Quando se utiliza uma máquina reflex dentro de uma caixa estanque, a imagem que ela vê não é a mesma que nós vemos através da máscara, mas sim uma “virtual”, que é paralela à superfície da janela hemisférica (domo) da caixa e que se encontra a poucas dezenas de centímetros de distância. Como se sabe, basta consultar uma tabela de profundidades de campo ou analisar a escala que as objectivas normalmente possuem, para se concluir que quanto menor for a distância a que se foca, menor será também a profundidade de campo. Como neste caso a imagem virtual é curva, e o foco foi feito para a zona central dessa imagem, uma grande abertura terá como consequência o “desfocar” dos cantos da mesma, que estão comparativamente muito mais próximos. É aqui que a utilização duma técnica designada por “forward focus” terá a sua grande utilidade, focando-se não no centro mas sim mais perto, na tentativa de recolocar os cantos dentro da zona abrangida pela profundidade de campo.


Para se conseguir que tanto esta pá da hélice dum naufrágio como o modelo ficassem focados, foi necessário recorrer a um diafragma mais fechado, o que foi ajudado pela pouca profundidade. Utilizou-se um flash para definir e dar cor ao primeiro plano.

Já no caso de a máquina ser do tipo de visor directo (Motormarine, Nikonos) o problema será principalmente de ordem prática. A focagem é aqui feita manualmente, por estimativa, e qualquer falhanço nesse cálculo produzirá uma maior ou menor área desfocada, que será tanto maior quanto mais aberto se encontrar o diafragma. Também aqui há um “truque” que se pode utilizar: consiste em fazer uso da distância hiperfocal e da objectiva de maior ângulo que se possua.


A distância hiperfocal, é aquela em que a profundidade de campo é máxima para cada abertura, estendendo-se desde o infinito até metade dessa distância. Por outras palavras, se para uma dada objectiva a distância hiperfocal for de 1 m com f/11, é porque colocando a abertura a f/11 e regulando a distância de focagem para 1 m, teremos a garantia de que desde 0,5 m até infinito tudo parecerá perfeitamente focado. Para os possuidores de Nikonos V, é muito fácil implementar este método na prática: basta que depois de seleccionada a abertura a utilizar, se mova a escala de distâncias (focagem) até que o infinito coincida com um dos indicadores de profundidade de campo que as objectivas têm. O outro indicador dará a mínima distância de focagem.


A utilização sistemática de uma abertura o mais fechada possível (f/22, p.ex.) não é a melhor solução uma vez que, apesar de permitir uma extensa profundidade de campo, irá também potenciar problemas de difracção os quais são nefastos para a qualidade final da imagem. O melhor desempenho de uma objectiva produz-se quando se utilizam aberturas entre 2 e 3 stops mais fechados que o seu valor máximo. Uma objectiva que no máximo abra a 2.8, terá o seu melhor rendimento quando utilizada a f/5.6 ou f/8.


Estas são pois as questões que se levantam na hora de escolher o par abertura/velocidade para obter aquela foto que desejamos. Apesar de à primeira vista parecerem algo complexas, na prática, com um pouco de experiência, não é difícil de tomar a decisão rapidamente, como é conveniente num mergulho de duração limitada.


Nesta como noutras actividades, quanto mais se pratica, mais rápida e consistente será a evolução, o que por sua vez vai tornar este e outro tipo de decisões uma “segunda natureza” sem que nelas pensemos muito.


Boas fotos!
Rui Guerra

 

 
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