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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Alguns casos concretos

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Quarta-Feira, 26 de Abr 2017 . 18:42

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Alguns casos concretos

Provavelmente, algumas das questões mais frequentemente colocadas quando faço uma apresentação de imagens, são “Qual a máquina que utilizou?”, ou “Que tipo de filme costuma usar?”. Estas e outras perguntas expressam por vezes a ideia de que o equipamento é o mais importante e que o simples facto de eu ter utilizado uma câmara profissional é a única razão da qualidade das imagens, e que portanto, com uma máquina mais barata tal resultado não seria possível. Isto é, a conclusão que essas pessoas traçam de imediato na sua mente é que como não têm a máquina XPTO esse tipo de imagens não é para elas, ponto final. Por outro lado isto leva por sua vez a um conceito e a um desejo (por vezes inatingível) de se possuir a tal máquina topo de gama e que sem ela nem vale a pena tentar.

Noutras ocasiões é o tema da própria apresentação que desde logo leva a conclusões incorrectas que redundam no mesmo tipo de pensamento: “Claro, lá conseguem-se fotos espectaculares!” ou “Pudera, com o dinheiro que se gasta nessa viagem tem mesmo que se conseguir tirar fotos assim!”.


Nada de mais errado! Nem o equipamento, nem o local ou a situação conseguem por si só justificar a (falta de) qualidade desta ou daquela imagem. Há questões bem mais importantes a serem colocadas e que normalmente não o são como “Em que é que estava a pensar na altura?”, “Porque é que enquadrou desta maneira e não doutra qualquer?”, “O Sol lá atrás foi por acaso?”, “Como é que aquela gorgónia está assim tão grande?” ou “Como é que conseguiu fotografar o peixe desta maneira?”. Estas e muitas outras questões é que podem levantar um pouco do véu acerca da história e da situação por trás de cada foto. Ao invés de nos perdermos com pormenores técnicos, que sem dúvida têm a sua importância, são normalmente os factos mais subjectivos e menos quantificáveis que de facto fazem a diferença.


Uma máquina topo de gama nas mãos de alguém sem conhecimentos não faz milagres mas, mesmo uma simples maquineta usada com criatividade e conhecimento pode produzir resultados espantosos. Não se deve esquecer que muitos dos grandes expoentes da fotografia do passado (e do presente) não dependem de equipamento sofisticado para obterem fotografias assombrosas.


Seguidamente, vou tentar desviar a atenção do leitor das questões técnicas e mostrar, através de alguns casos concretos, aquilo que me levou a tirar esta ou aquela foto de determinado modo.


Os “achados” são sempre uma fonte de encontros inesperados. Tratam-se de objectos à deriva no oceano que são aproveitados pelos seres marinhos como abrigo temporário.


Durante uma deslocação aos Açores para fotografar cachalotes, encontramos esta escada de corda de um navio. Coloquei um flash na máquina (para fotografar cetáceos não é necessário mas ando sempre com um para o que der e vier) e deslizei para a água. O flash foi aqui utilizado para iluminar o peixe que se encontrava naturalmente na sombra da escada.


A ideia era documentar a situação que neste caso me pareceu mais importante do que o peixe em si. Optei assim por manter a objectiva de 20 mm que já tinha colocado na máquina. Procurei descentrar um pouco a cena, deixando algum espaço livre à sua frente para “respirar".


Nas águas transparentes da ilha Graciosa, durante o último Campeonato Nacional de Fotografia Subaquática (conhecido por Fotosub), deparei com uma zona de grandes rochedos povoados por inúmeras estrelas-do-mar vermelhas. Os raios de Sol entravam na água duma forma prodigiosa, aumentando ainda mais a sensação de água cristalina, quase como se se estivesse a mergulhar em água mineral.


Procurei uma pedra que tivesse algumas estrelas juntas e que simultaneamente permitisse um enquadramento de modo a ser possível ver-se o Sol. Com uma objectiva fisheye a profundidade da cena é aumentada e as proporções distorcidas. Utilizei um toque de flash para realçar as cores das estrelas, ao mesmo tempo que pedi ao meu modelo que nadasse para mim. As bolhas que largava acabaram por aumentar ainda mais a sensação de se mergulhar em água mineral.


Durante um outro Fotosub há já alguns anos, desta feita nas águas de S.Miguel, andava desesperado à procura dum substituto para a categoria “Criativa” pois o que tinha idealizado não tinha sido possível concretizar.


Estávamos a mergulhar numa zona profunda (cerca de 38 metros) junto à Baixa da Relva, quando um compacto cardume desce direito a nós vindo das águas superficiais.


Devido à profundidade a luz ambiente era diminuta e ao medi-la através do fotoómetro da máquina surgiu-me imediatamente a ideia: fazer uma foto com uma velocidade extremamente lenta (cerca de 1 segundo) para conseguir uma imagem que sem cortar completamente com a realidade fosse no entanto bastante distinta desta.


Experimentei com duas ou três velocidades diferentes e, mais tarde, na mesa de luz a escolha era óbvia: esta imagem dava a sensação de se tratarem de peixes sobre um pano azul…um pano liquido de água!


Durante os longos períodos de espera entre os mergulhos dos cachalotes, é frequente sermos visitados por numerosos grupos de golfinhos que parecem desafiar o barco para uma corrida. Os seus saltos, piruetas e excitação contagiantes expressão o puro prazer da velocidade e da sensação da água a correr contra o corpo.


Muitas vezes a melhor forma de captar estes momentos é simultaneamente a mais simples: mergulhei a caixa estanque na água, junto à proa do barco, enquanto este navegava a baixa velocidade na esperança de captar a euforia do momento.


A perspectiva de se estar “dentro” do grupo, a espuma junto à cauda dum deles e o golfinho que se aproxima de baixo para se juntar à festa, tornam esta imagem particularmente dinâmica e interessante.


No meio de nenhures, a algumas milhas de terra, uma pequena cabeça espreita à superfície. É uma tartaruga que vem mais uma vez respirar o ar de que depende. Sendo seres quase sempre solitários, a superfície de que tanto dependem contrasta brutalmente com o azul profundo das águas oceânicas, com milhares de metros de profundidade.


Após uma curta sessão fotográfica em apneia, esta tartaruga deu meia volta e planou para o azul profundo tendo como estrada os raios de Sol que mergulham na escuridão. A última fotografia que consegui captar dela, já direito às profundezas, expressa perfeitamente a essência dum ser solitário que vaguei no meio de nenhures. A suavidade dos seus movimentos e a sua entrega ao meio envolvente são demonstrados pela posição das suas barbatanas.


O facto desta fotografia conter muito espaço livre preenchido apenas com água, só aumenta a sensação de solidão e demonstra melhor o modo de viver das tartarugas.

Quando encontrei esta moreia negra numa fenda debaixo duma pedra, surgiu-me a ideia de a tentar fotografar com um ar ameaçador, aproveitando-me um pouco do facto da maioria das pessoas acharem as moreias um ser altamente perigoso.


Na minha mente havia duas questões que tinham de ser respeitadas: o tamanho da moreia na imagem final deveria ser o maior possível e esta devia encarar a câmara completamente de frente de modo a realçar o seu ar “ameaçador”.


Para conseguir o detalhe e principalmente a textura na pela da sua cabeça, orientei os dois pequenos flashes que estava a utilizar de modo a cada um iluminar um dos lados da cabeça.


Foi necessário passar bastante tempo em frente do buraco para que ela ganhasse confiança ao ponto de sair um pouco e encarar a máquina como pretendido.


O contraste dos olhos, cheios de luz, com a pele negra, aumenta ainda mais a sensação de perigo.


Semelhantes a pequenas penas, estes seres formam colónias que cobrem amplas zonas de rocha. Atraído pela fragilidade da sua aparência e pela sua simetria, procurei encontrar um indivíduo isolado e numa posição saliente em relação ao substrato rochoso. De forma a salientar mais o detalhe coloquei o flash de modo a não iluminar a rocha atrás do motivo.


Para aumentar ainda mais o impacto da imagem, optei por um enquadramento consentâneo com a forma do motivo, na vertical e ligeiramente inclinado, sobre uma das diagonais da imagem.


O facto de não se tratar de um espécime perfeito, dá ainda mais interesse à imagem, quebrando um pouco a simetria quase artificial.


Na realidade são os pormenores que, quando conjugados com uma boa técnica, levam a uma expressão mais ou menos aproximada daquilo que vislumbramos com a visão da nossa mente, em antecipação da imagem final. Normalmente os melhores resultados são obtidos quando se vai para a água com uma ideia pré-definida, ainda que genericamente, o que nos levará a procurar motivos e/ou situações que melhor se adeqúem ao objectivo em causa. Muitas vezes, esbarramos em coisas que nos levam a pensar neste ou naquele efeito, e começa-se a trabalhar em torno dessa ideia, refinando-a até à sua completa realização.


Boas Fotos!
Rui Guerra

 

 
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