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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Caça fotográfica

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Sexta-Feira, 23 de Jun 2017 . 22:31

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

A caça fotográfica

 

Por analogia com a caça submarina, o termo “caça fotográfica” refere-se à actividade de “caçar” fotograficamente os habitantes do meio subaquático, mais frequentemente dirigida a um grupo em particular: os peixes.

 

Se noutros países esta actividade tem já alguma tradição, disputando-se provas regionais e nacionais com o objectivo de apurar os representantes para as provas internacionais da especialidade, entre nós é uma actividade quase completamente desconhecida, tendo-se apenas realizado uma prova experimental, organizada pela Ináqua-Sub, em 2002. Já na altura, a curiosidade geral e a vontade de experimentar algo de novo, levou à participação tanto de fotógrafos subaquáticos como de caçadores submarinos. Isto porque se por um lado a caça fotográfica é praticada exclusivamente em apneia, recorrendo ao equipamento e técnica normalmente utilizados pelos apneístas e caçadores submarinos, por outro, a necessidade de se possuir alguma técnica e conhecimentos fotográficos, é um convite expresso à participação de fotógrafos.

 

Estamos assim num terreno neutro, em que a conciliação de duas actividades aparentemente antagónicas se encontram com resultados muito positivos para ambos os lados.

 

A caça submarina, muitas vezes vista como uma actividade puramente destrutiva, deixa muitos dos seus praticantes numa posição delicada face à opinião pública e a algumas instituições de caris conservacionista. No entanto, nem só de peixe vive o homem, e, para muitos, a sua actividade é apenas um pretexto para se refazerem do quotidiano citadino, “recarregarem baterias”, e passarem umas horas no meio subaquático, praticando apneia, numa simbiose e equilíbrio que só pode ser entendido por quem já o experimentou. O facto de levarem ou não peixe para casa é muitas vezes secundário, pois as sensações da apneia e o bem-estar no final do dia são sempre gratificantes. Mesmo os caçadores que não são muito bem sucedidos na obtenção de pescado, mas que continuam a praticar a modalidade com paixão, não se convertem ao mergulho com escafandro autónomo, pois isso seria a negação duma importante faceta da sua actividade, a apneia. Também o tão falado instinto de caça, que é inato ao Homem, constitui uma forte motivação para se continuar a praticar a modalidade em locais que muitas vezes já não têm mais para oferecer ao caçador. Um peixinho de 10 cm ou um pequeno caboz, não merecem a atenção deste, nem tão pouco a minúscula moreia que espreita do seu buraquinho.

 

É aqui que a caça fotográfica desempenha o seu importante papel na satisfação plena de muitos dos objectivos dum caçador. Proporciona um objectivo para a prática da apneia em condições em tudo idênticas; todos os conhecimentos sobre as espécies, como o seu comportamento e habitats, continuam aqui a ser importantes; agora, mesmo em zonas “rapadas”, já sem peixe de porte, continua a ser possível encontrar as presas porque em caça fotográfica não importa o tamanho destas mas sim o seu tamanho relativo na imagem final; agora a faceta não destrutiva desta disciplina permite que um mesmo peixe possa ser “caçado” vezes sem conta e deste modo levanta o negro véu do “caçador destruidor”. Por último, as fotos obtidas são uma recordação permanente do tempo que se passou no mundo subaquático. Pela negativa há a registar o mais elevado custo do equipamento fotográfico face ao das armas. Mas, mesmo assim, o advento do digital, permite reduzir drasticamente as despesas e com a natural evolução e concorrência entre as marcas, é já possível encontrar conjuntos a preços muito competitivos.

 

Do ponto de vista do fotógrafo subaquático, que habitualmente desempenha a sua actividade recorrendo ao escafandro autónomo, a caça fotográfica permite-lhe desenvolver aptidões úteis à sua carreira e aproveitar um leque de oportunidades específicas do mergulho em apneia. Quantos de nós não sentimos já a necessidade de utilizar rebreathers, silenciosos e sem bolhas, para nos aproximarmos de espécies mais desconfiadas? O seu custo e complexidade são os seus dois grandes contras. E o tempo? Muitas são as situações em que os 60 minutos de duração média dum mergulho com escafandro são insuficientes para usufruir em pleno de situações por vezes únicas. Este aspecto é resolvido pelo dito rebreather mas agrava um outro. O tempo gasto a equipar completamente um mergulhador antes de este estar pronto a operar, que é como quem diz a fotografar.


Situações e oportunidades únicas aparecem quando menos se esperam. Um grupo de golfinhos brincalhões, uma tartaruga à superfície, um destroço à deriva cheio de peixes por baixo ou até mesmo uma baleia, são apenas exemplos de situações que já me ocorreram e podem não estar acessíveis o tempo necessário para colocar todo o escafandro autónomo, com os pesos, barbatanas, computadores e demais manómetros, sem esquecer as rotineiras verificações de segurança. Quando, pelo contrário, se opta pelo mergulho em apneia basta colocar o cinto de chumbos (se não estiver já posto) calçar as barbatanas e num ápice estamos prontos a deslizar silenciosamente para dentro de água (ao invés da estrondosa queda de costas com o escafandro) e nadar velozmente para a zona pretendida. Também o facto de em apneia se utilizarem barbatanas longas e nervosas, que permitem maiores velocidades de natação, constitui uma vantagem relativamente às curtas e “confortáveis” barbatanas de mergulho.


Acabou o rolo ou a situação mudou? Nada mais simples, regressa-se ao barco e sobe-se para bordo tendo apenas de se passar a máquina a alguém. Pode de imediato dar-se início à deslocação do semi-rígido para outra área, sem mais perdas de tempo. Repetido ao longo do dia e por períodos variáveis, acaba-se por se estar na água muito mais tempo que habitualmente. Também a melhoria da condição física e da aquacidade adquirida na prática da caça fotográfica terão os seus efeitos benéficos nos mergulhos com escafandro. Qualquer fotógrafo subaquático que leve a sua actividade um pouco a sério, sabe que para fotografar baleias ou outros mamíferos marinhos, quase sempre indispensável recorrer ao simples mergulho em apneia. Quando mais à vontade de estiver na sua prática, melhores serão as fotos obtidas!

 

Em competição ou no lazer, há aspectos do equipamento que convém realçar. Na caça fotográfica, quase todo o tipo de material se pode utilizar, desde máquinas compactas (digitais ou não) a máquinas reflex nas respectivas caixas estanques. Tudo depende daquilo que temos e do tamanho físico do conjunto com que conseguiremos mergulhar confortavelmente em apneia. Deve-se ter em consideração o tipo de peixes (confiantes, desconfiados, junto ao fundo, no azul, em buracos, etc) e sua dimensão. Estes irão determinar o tipo de objectiva a utilizar. Numa vulgar situação de Sesimbra, p.ex., em que os peixes são tímidos e de pequeno porte, há que optar por uma objectiva de distância focal na ordem dos 100 mm (pelos padrões das reflex analógicas em caixa estanque, ou seu equivalente digital, consoante o formato do sensor). Preferencialmente deverá ser uma objectiva com capacidade de macro, para permitir fotografar convenientemente os frequentes e mais tolerantes góbios e blénios que povoam os fundos. Um bom autofocus (AF) é uma ajuda bastante grande, uma vez que conseguem focar muito mais rápida e precisamente que nós. No caso das caixas estanques, estas devem ser tão pequenas e ergonómicas quanto possível. Devem ainda permitir o rápido ajuste da abertura, de preferência recorrendo só à mão direita. Isto porque em apneia não temos um colete para neutralizar o nosso peso e, invariavelmente, estaremos muito leves acima duma certa profundidade e demasiado pesados abaixo dela. Há pois a necessidade de utilizar a mão esquerda para nos agarrarmos às rochas ou para facilitar a progressão junto ao fundo. Uma diferença significativa em relação à caça submarina, em que se pode matar um peixe a 3 ou 4 metros de distância, é que em caça fotográfica é necessária mais paciência para se “disparar” a menos de 1 metro, de forma a garantir uma fotografia com o contraste e saturação necessárias. Cabe aqui um pequeno esclarecimento para os ainda renitentes: em caça fotográfica a qualidade das fotografias nem sempre é a melhor (a comprová-lo estão as imagens que acompanham este artigo, todas obtidas em Sesimbra, em apneia) uma vez que apenas se dispõe de uns segundos para se fazer a aproximação, enquadrar e disparar. Vai depender da aquacidade do fotógrafo, da sua condição física e psicológica nesse dia e, claro, das condições vigentes.


Outra peça importante é o flash com o qual se vão saturar as cores ou iluminar peixes em fendas e buracos. Aqui há um compromisso importante que vai depender da opção de cada um. Se por um lado um flash grande, com elevado NG (Número Guia) permite a utilização de aberturas de diafragma mais pequenas com o consequente ganho em profundidade de campo, um flash mais pequeno vai ser muito mais fácil de utilizar em apneia, pela sua menor resistência à água, mas o seu menor NG implica a utilização de aberturas maiores com um maior risco de os olhos do peixe ficarem fora da zona abrangida pela profundidade de campo (caso não se tenha tido tempo de focar exactamente nos olhos). Também o seu alcance efectivo, para uma determinada abertura, será menor e obrigará a uma apneia mais longa no sentido de se obter uma maior aproximação ao peixe visado. Para maximizar sempre a profundidade de campo, há que ajustar frequentemente a abertura consoante a distância a que se encontra o motivo, razão pela qual referi a vantagem de a caixa estanque ou máquina utilizada permitir o seu ajuste de modo expedito e só com a mão direita. A utilização do TTL deve ser temperada com algumas considerações relativas à área ocupada pelo peixe no enquadramento e a sua reflectividade (cuidado com peixes prateados…). A hipótese mais segura, mas que exige alguma habituação, é a de colocar o flash em TTL mas utilizá-lo como se estivesse em manual, salvaguardando-nos assim de eventuais sobreexposições grosseiras.

O braço articulado que segura o flash à máquina, ou caixa estanque, deverá ter também duas características quase antagónicas. Deverá permitir o posicionamento do flash no maior número de orientações possível de modo a permitir uma iluminação eficaz, quer seja em água livre ou no espaço limitado dum buraco. Se demasiado grande ou complexo, vai ser um entrave ao bom desempenho do fotógrafo. Se demasiado simplista, não vai permitir as orientações necessárias. Pessoalmente utilizo apenas uma pequena secção com cerca de 12 cm de comprimento com rótulas nos dois extremos. Há quem opte por utilizar dois flashes, praticamente fixos, um de cada lado da caixa estanque, obviando a necessidade de braços articulados. Esta opção, em águas muito sujas, pode originar o aparecimento, na fotografia, de pontos brancos desfocados de suspensão, devido à excessiva proximidade da objectiva (o mesmo se passa com os flashes incorporados das máquinas compactas).

O importante é que o conjunto seja funcional, intuitivo e equilibrado. Neste último aspecto, dependendo do modo de operação do “caçador” há três opções possíveis. A primeira é tornar o conjunto neutro, ou seja, quando largado debaixo de água, não afunda nem sobe, ou fá-lo muito lentamente. Deste modo não terá influência na evolução do caçador apneísta, sujeito já às variações de flutuabilidade do neoprene do seu fato. A segunda opção é tornar o conjunto “negativo” de modo a que uma vez largado no fundo, aí permaneça. É a opção daqueles que preferem subir e descer sem o entrave do equipamento fotográfico enquanto, p.ex, aguardam que determinado peixe sai de um buraco. A terceira opção é tornar o equipamento “positivo” para que suba sempre para a superfície quando largado. À parte da segurança psicológica que esta prática implica, a sua vantagem é explorada por “caçadores” que optam por fazer a parte mais perigosa do mergulho, a subida, livres do equipamento, enquanto este o faz por si mesmo.

Por todas as vantagens apontadas, ou pela simples experiência, a caça fotográfica constitui uma experiência a não perder por caçadores submarinos, fotógrafos subaquáticos ou por simples mergulhadores que tenham uma pequena máquina fotográfica em casa.


Boas fotos!
Rui Guerra

 

 
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