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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Competição em fotografia subaquática

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Quarta-Feira, 26 de Abr 2017 . 18:43

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Competindo em Caça Fotográfica

 

No artigo do mês passado falei da caça fotográfica como actividade por si só, praticada com a finalidade de se captarem imagens de seres pelágicos ou peixes junto à costa, mas sempre na tentativa de conjugar duas actividades complementares: a apneia e a fotografia. Neste artigo irei abordar as questões ligadas às provas em si, tanto do ponto de vista do competidor como do da Organização.

 

Já com uma certa tradição em países como Itália, França e Espanha, as provas de caça fotográfica revestem-se de um interesse muito próprio, face às características particulares que apresentam. Em primeiro lugar há que esclarecer desde já o seguinte: se quando se fotografa em apneia é possível obter imagens de todo o tipo de seres vivos, durante uma prova de caça fotográfica apenas se pode fotografar um único grupo: os peixes. E aqui começa desde logo a necessidade de algum conhecimento biológico, ainda que rudimentar, por parte dos atletas.

 

Quando se organiza a prova, um dos aspectos que importa desde logo definir é a zona ou zonas de prova bem como o modo como se colocarão lá os atletas. Nesta escolha há dois factores principais: a abundância de espécies e as condições locais (estado do mar, profundidade, visibilidade, temperatura, etc.). De nada serve escolher um local muito rico se depois os concorrentes são incapazes de o explorar convenientemente. Dependendo do nível da prova, assim o local poderá ser mais ou menos complicado. Entre nós, p.ex., sendo a caça fotográfica uma actividade incipiente, conviria escolher uma zona junto a terra e que se estendesse até aos 15 ou 20 m de profundidade e com mar calmo (zonas normalmente abrigadas). A visibilidade e a temperatura, embora também importantes, são mais difíceis de prever com a necessária antecedência para a programação da prova, optando-se por se definirem zonas de reserva que serão ou não utilizadas dependendo da situação geral no dia “D”. Claro que tudo isto tem de ser conjugado com a abundância de peixe nesses locais e o seu comportamento face ao mergulhador.

 

Por outro lado a escolha do local também será condicionada pelo modo de como os atletas se deslocarão até lá. Em situações de escassez de meios ou quando as condições naturais o aconselham, pode-se partir à barbatana desde a costa, sendo assim também mais fácil controlar toda a área e poupando-se algum tempo necessário para outras questões logísticas. Optando-se pela deslocação em barco, a forma mais simples é a utilização de um ou mais semi-rígidos, que pela sua rapidez, estabilidade, facilidade de acesso à água e possibilidade de aceder a zonas pouco profundas os tornam no meio de deslocação preferencial. Comparativamente com uma competição fotográfica com escafandro autónomo, facilmente se compreende que a caça fotográfica exige muito menos meios e como tal custos menores para a Organização.

 

Antes da partida para o local escolhido é distribuído um único rolo de diapositivos, de 36 exposições (normalmente de sensibilidade ISO 100), devidamente marcado pela organização e que será o único que pode ser utilizado. No caso da fotografia digital, todos os cartões terão de ser marcados e formatados pela própria organização antes do inicio da prova. A duração da prova costuma ser idêntica a uma competição de caça submarina, entre 3 e 5 horas consecutivas. Também aqui, por questões logísticas ou meteorológicas, a duração prevista pode ser reduzida. Durante toda a prova, os atletas são obrigados a sinalizarem a sua posição através duma bóia, que deverá permanecer sempre junto ao caçador a uma distância máxima definida no regulamento. De notar que a bóia não tem de estar sempre fisicamente ligada ao atleta, podendo ser fundeada nas proximidades do local onde este pretende estar durante algum tempo.

 

É então que começa o verdadeiro prazer da apneia e da “caça”, utilizando cada um as suas capacidades e astúcias para se aproximar ao máximo dos “peixes-alvo”. Em caça fotográfica não se buscam troféus de vários quilos, o que conta é a espécie fotografada seja um juvenil ou um indivíduo adulto (atenção ao dimorfismo que algumas espécies apresentam entre o estado jovem e o adulto…). No final pretende-se que cada atleta tenha fotografado, o melhor possível, o maior número de espécies diferentes num único rolo de 36 exposições (ou dentro do número limite imposto para o caso da “caça fotográfica digital”). Para se evitarem repetições desnecessárias, é usual utilizarem-se pequenas placas para escrever debaixo de água onde são contabilizadas as espécies fotografadas ou a fotografar. Pelo lado do equipamento, há que optar por conjuntos que funcionem bem (de forma rápida e simples) e que sejam facilmente manobráveis em apneia. Claro está que uma boa máquina reflex com um autofocus rápido será uma vantagem e, de certa forma, cria uma certa desigualdade, razão pela qual, numa prova organizada pela Ináqua-Sub, estava previsto um factor de bonificação de 1,2x para quem utilizasse máquinas não reflex. Resulta também muito útil utilizar uma qualquer fonte de luz, para procurar debaixo das rochas ou em buracos. A forma de colocar o/os flash/es varia segundo a preferência de cada um, sendo no entanto certo que braços longos e/ou demasiado articulados atrapalham mais do que ajudam.

 

Acabada a parte molhada da prova, há ainda uma outra etapa a ultrapassar. Trata-se da identificação das espécies (nome vulgar ou, de preferência, nome científico), durante um período determinado de tempo, antes das imagens serem entregues ao júri para classificação. Esta identificação é feita através do preenchimento de um quadro onde consta também o número da foto em questão, entre outros elementos. Para o fazer, os concorrentes poderão socorrer-se de livros ou outras publicações de que sejam portadores. Faz igualmente parte do regulamento a identificação do livro ou livros que servirão de referência ao júri. Se um concorrente se enganar a identificar um peixe ou se não o identificar de todo, a imagem correspondente será desclassificada.

 

Quanto às possíveis 36 fotos/espécies há que fazer uma salvaguarda. Imagine-se, por exemplo, que a zona em questão é particularmente pobre em espécies, ou as condições vigentes são particularmente duras (ou que a prova foi encurtada por algum motivo. O que pode a Organização fazer para aumentar o nível da prova bem como a qualidade final das fotos? Nada mais simples: reduz o número de fotos a apresentar pelos concorrentes, ou seja, ao invés de contarem as 36 imagens, apenas serão contabilizadas 20, p.ex. No mesmo tempo de prova os concorrentes terão assim mais hipóteses de procurarem espécies mais valorizadas ou de melhorarem fotos já feitas. Como no máximo o primeiro classificado terá 20 espécies diferentes, um concorrente que só tenha conseguido 10, não ficará tão desfasado, proporcionalmente.

 

O júri, composto no mínimo por três elementos, deverá conter um biólogo marinho, um caçador submarino e um fotógrafo subaquático. Na atribuição da classificação ter-se-ão em conta dois factores principais: a espécie fotografada e a qualidade da imagem. Quanto à espécie, é elaborado um quadro (que faz parte do regulamento) no qual as diversas espécies possíveis de encontrar na zona estão distribuídas em três colunas, cada uma com um coeficiente de dificuldade a multiplicar pelo total de pontos atribuídos pelo júri. Por cada espécie nova serão também atribuídos 10 pontos de bonificação. Quanto à qualidade da imagem serão analisados parâmetros como o tamanho relativo da espécie na imagem, a sua posição, enquadramento, exposição, nitidez, etc.

 

Exemplo de Coeficientes de Dificuldade para uma prova em Sesimbra:

 

x 2 x 1,5 x 1
Tubarões, Caçoes e afins
Todas as espécies
Raias, Ratões e afins
Todas as espécies
Esturjão
Acipenser sturio
Sardinha
Sardina pilchardus
Sável
Alosa sp.
Anchova
Engraulis encrasicolus
Peixes-ventosa
Lepadogaster sp.
Rémora
Remora remora
Tamboril
Lophius piscatorius
Peixe-agulha
Belone belone
Barracuda
Sphyraena viridensis
Apára-lápis
Macroramphosus scolopax
Robalo
Dicentrarchus sp.
Mero
Epinephelus marginatus
Badejos
Mycteroperca sp.
Cherne
Polyprion americanus
Enchova
Pomatomus saltator
Lírios
Seriola sp.
Charéus
Caranx sp., Pseudocaranx sp
Dourada
Sparus aurata
Corvina
Argyrosomus regius
Tunídeos
Todas as espécies
Enguia
Anguilla anguilla
Safio
Conger conger
Moreias
Muraena sp.,Gymnothorax sp
Charroco
Taurulus bubalis
Fanecas e afins
Pollachius sp,Trisopterus sp
Abrótea
Phycis sp.
Peixe-galo
Zeus faber
Andorinha
Anthias anthias
Apogon
Apogon imberbis
Pargo
Pagrus pagrus
Capatão
Dentex dentex
Palmeta
Lichia amia
Peixe-piloto
Naucrates ductor
Plombeta
Trachynotus ovatus
Carapau
Trachurus sp.
Boga
Boops boops
Sargos
Diplodus sp.
Besugo
Pagellus bogaraveo
Peixe-aranha
Trachinus sp.
Peixe-lua
Mola mola
Lagartos-do-mar
Sinodus sp.
Peixe-rei
Atherina presbyter
Cavalo-marinho
Hippocampus ramulosus
Agulhinha
Syngnathus sp.,Entelurus sp.
Rascassos
Scorpaena sp.
Ruivos
Todas as espécies
Garoupas
Serranus sp.
Ferreira
Lithognathus mormyrus
Oblada
Oblada melanura
Salema
Sarpa salpa
Choupa
Spondyliosoma cantharus
Salmonetes
Mullus sp.
Castanhetas
Chromis sp.
Taínhas
Chelon sp.,Mugil sp.,Liza sp.
Bodeões e afins
Todas as espécies
Judia
Coris julis
Peixe-verde
Thalassoma pavo
Cabozes ( Blénios, Gobios,
Tripterígideos)
Todas as espécies
Galeota
Gymnammodytes sp.
Peixe-Pau
Callionymus lyra
Cavalas
Scomber sp.
Peixes-chatos (Linguados, Solhas, Pregados)
Todas as espécies
Peixe-porco
Balistes carolinensis

 

Em jeito de conclusão, nunca é demais realçar o carácter “ecológico” deste tipo de modalidade, que alia uma série de factores como sejam a boa forma física, a aquacidade, o controlo da apneia, o conhecimento das espécies e a técnica fotográfica. Uma nota positiva fica sempre pelo contacto entre caçadores submarinos e fotógrafos subaquáticos, aparentemente com posições opostas em relação ao mar, mas que aqui pisam um terreno comum que favorece a troca de experiências entre os dois grupos, ambos com algo para ensinar e partilhar com o outro.

 

Boas Fotos!
Rui Guerra

 

 
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