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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: A "díficil" orientação do flash"

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Terça-Feira, 23 de Mai 2017 . 21:27

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

A "difícil" orientação do Flash

Introdução


Não é raro que tendo tentado fazer algo parecido com “fotografia subaquática”, que nalguns casos se poderia chamar “transporte penoso de material fotográfico subaquático”, muitos mergulhadores tenham acabado por desistir dizendo coisas como: “quando fotografava não aproveitava o mergulho” ou “andava com tanta tralha que era muito complicado” ou ainda “como agora estou mais virado para o mergulho técnico não me posso dar ao luxo de andar com mais uma máquina fotográfica”!

Se bem que muitas vezes as razões apresentadas para explicar a completa desistência desta fascinante actividade possam ter algum fundamento, por vezes a causa da frustração reside na peça do equipamento que parece a mais simples e que acaba por se tornar a mais difícil de utilizar: o flash.

Vamos pois ver como tirar o melhor partido desta peça fundamental do equipamento fotográfico. Como é do conhecimento geral, o mundo submarino apresenta-se quase uniformemente azul (mais precisamente verde, em muitos locais de Portugal).

Tal cor é aquela que penetra mais profundamente no meio aquático, acabando também por desaparecer para dar lugar à “escuridão eterna”. Este fenómeno, a absorção selectiva, é o responsável pelo desaparecimento das cores quentes (vermelho, laranja) nos primeiros metros, seguindo-se os tons de amarelo e verde e por último os azuis. Deste modo, as cores exuberantes que vemos nas fotografias dos livros e revistas, desaparecem de modo arrepiante quando mergulhamos o que nos obriga a gastar centenas de contos nuns “bajolos” enormes e a que chamamos pomposamente ‘flash's electrónicos subaquáticos'.


Braço na mão...


Um dos aspectos da sua utilização que à primeira vista parece simples, é o da sua correcta orientação segundo o motivo e o efeito pretendido.

Há que distinguir, desde já duas maneiras distintas de utilização: fixo à máquina, através de um braço mais ou menos articulado ou solto na mão. Cada um dos métodos tem os seus ferranhos adeptos, sendo claramente uma questão pessoal e que deve ser adaptada às circunstâncias do momento. Aquando da compra do braço articulado, deve desde logo ter o cuidado de optar por um que permita a articulação em pelo menos dois pontos distintos (normalmente junto à máquina e a meio). Frequentemente a articulação junto ao flash só permite o seu movimento segundo um eixo (para baixo e para cima). No entanto, se houver essa hipótese, deve-se optar, também nesta zona, por uma verdadeira articulação que permita o seu movimento em todas as direcções sem qualquer restrição.

Idealmente deve também possuir um tipo qualquer de fixação rápida, de modo a tornar possível soltar o flash da máquina (ou caixa estanque), com uma só mão e orientá-lo livremente na mão, quando as circunstâncias o aconselharem. O facto de o poder soltar da máquina poderá ser determinante quando pretender afastá-lo para além do que o comprimento do braço articulado permite.

Por outro lado, o sistema de aperto das rótulas (pequenas esferas nas extremidades das diversas secções do braço) deverá ser progressivo, isto é, não passar bruscamente de uma situação na qual o flash não se segure, para uma em que o braço fica totalmente rígido.

Existem muitos tipos de braços articulados disponíveis no mercado, com preços e soluções para todos os gostos. Ao escolher, deverá ter em atenção duas características importantíssimas: a suavidade e progressividade dos seus movimentos e o seu peso subaquático. Existe uma marca em particular, com grande sucesso entre os fotógrafos de todo o mundo, que para além de uma qualidade de construção elevada e um peso ultra-leve, conseguiu, através da colocação de O'rings nas rótulas, uma grande suavidade de movimentos ou, se necessário, um bloqueio total do braço.

Se já possui um braço e este não tem a necessária progressividade, poderá resolver a situação colocando mais ou menos anilhas de borracha (que poderão ser adquiridas em qualquer casa de ferragens) imediatamente abaixo do manípulo, as quais, através da sua maior ou menor compressão, irão tornar a utilização deste elemento bastante mais fácil e agradável.


Na prática...


Imagine então que está a mergulhar numa baixa afastada de terra, repleta de cardumes, com bastante vida fixa e colorida ao longo das paredes. Tudo isto com um mar um tanto mexido e alguma corrente.

O cenário é ideal para algumas fotografias de ambiente, com a vida fixa e colorida iluminada pelo flash a enquadrar os cardumes que passam em segundo plano, em silhueta contra o fundo azul da água. Nesta, como em muitas situações de utilização dum flash, há que nunca esquecer a regra número um da fotografia subaquática: “Nunca ilumine a água entre o motivo e a máquina.” Para o conseguir poderá ser conveniente arranjar um ponto de apoio para se estabilizar (ou pelo menos, estabilizar a parte de cima do seu corpo e a máquina). Cuidado! Não moleste os habitantes subaquáticos – afinal são eles parte da razão de ser da nossa actividade...

Duma forma tão inóqua quanto possível, utilize pois apenas uma mão para se segurar à rocha, evitando a todo o custo “aterrar” pesadamente sobre o substrato coberto de vida. Para ter a mão disponível é necessário que o flash esteja fixo à máquina/caixa estanque através dum braço articulado.

Nesta imagem foram utilizados dois flashes de grande ângulo, orientados paralelamente ao eixo da objectiva e colocados nos extremos de dois braços articulados com cerca de 50 cm, completamente distendidos para ambos os lados.

Primeiro, enquadre e componha a imagem, através do visor e em seguida coloque o flash na posição desejada tentando iluminar o motivo apenas com o limite do cone de luz. Não deve virar o flash directamente para o motivo, uma vez que irá iluminar uma grande parte da coluna de água entre a máquina e o motivo, em especial se aquele tiver um ângulo de iluminação muito aberto. Concentre-se em fazer uma iluminação correcta das rochas e vida fixa em primeiro plano, pois se tentar iluminar os cardumes distantes, só irá conseguir aumentar a suspensão que eventualmente aparecerá na fotografia final. Lembre-se que é inútil (no que diz respeito a cores) tentar utilizar o flash a mais de 1,8 a 2 m de distância, sendo, pelo contrário vantajoso aproximar-se o mais possível do motivo através de uma objectiva tão grande angular quanto possível.

O facto de usar o flash fixo tem também a vantagem de não correr o risco de mover o flash inadevertidamente durante o espaço de tempo que decorre até tirar de facto a fotografia. No entanto, nunca é demais lembrar que nesta actividade não há dogmas. Cada fotógrafo deve experimentar todas as opções à sua disposição e utilizar aquelas que julgue mais adequadas à situação em causa.


O problema da suspensão...


Para evitar a suspensão, há duas técnicas possíveis, que variam consoante as condições, equipamentos utilizados e a habilidade de cada um.

Uma “corrente de pensamento” diz que, como o problema reside na suspensão existente nas imediações da objectiva, que irá aparecer como grandes bolas brancas desfocadas, o melhor será afastar ao máximo o flash da máquina, se necessário segurando-o na mão, com o braço esticado e por cima do motivo (no caso de se utilizar um só flash). Assim uma luz uniforme e vinda de cima ‘cai' sobre o motivo, criando um ar natural e quase sem suspensão, pois a existente é iluminada segundo um ângulo muito diferente daquele sobre o qual a máquina “vê”, fotografando assim o lado escuro, por assim dizer, das partículas e tornando-as muito pouco visíveis (pense na Lua como um ponto de suspensão, no Sol como o flash e na Terra como a máquina e agora relacione as várias fases da Lua com a posição relativa dos três astros...).

Apesar da fraca visibilidade reinante, foi possível obter uma imagem sem suspensão aparente graças ao uso de dois flashes de grande angular, orientados paralelamente à objectiva e colocados nas extremidades de dois longos braços articulados (80 cm).

A outra maneira de operar, defende que o mais importante não é a distância entre o flash e a objectiva, mas sim a orientação do mesmo; este deverá ser apontado directamente em frente, paralelamente à objectiva ou até ligeiramente para fora, de modo a utilizar apenas o limite da luz do flash e não iluminar a água entre a objectiva e o motivo. Com o flash mais próximo é também mais fácil orientá-lo de modo mais preciso.

Pessoalmente, utilizo um misto das duas técnicas, procurando âneamente afastar o flash do eixo da objectiva e utilizar apenas o limite da luz do mesmo, tentando deste modo manter a água, entre o motivo e a máquina, “na sombra”.

Cabe-lhe a si, caro fotógrafo, experimentar estas técnicas e decidir qual a que se adapta melhor a si e a cada circunstância. Há no entanto, duas certezas: ambas têm como objectivo iluminar ao mínimo a água entre a máquina e o motivo e ambas têm seguidores entre os maiores fotógrafos a nível mundial com resultados deveras espantosos!

Bom, pode agora finalmente tirar a tão desejada fotografia, a qual já não conterá qualquer peixe se demorar tanto tempo a pensar como a ler estas enfadonhas linhas!


Uma questão de transparência...


Imaginemos agora uma situação diferente em que com o mar calmo você se vê diante de uma postura de choco e quer revelar as pequenas criaturinhas no seu interior.

Aqui não se põe a questão da estabilidade, nem do azul da água (uma vez que grande parte ou a totalidade da fotografia irá ser preenchida pelo fundo rochoso). Deparamo-nos agora com um outro tipo de problema a resolver que é o da colocação do flash para destacar as características especiais do motivo ou simplesmente destacá-lo do fundo. No caso concreto, e dado o seu carácter translúcido, há todo o interesse em realçar essa característica. Como não temos ângulo para fotografá-la contra a superfície, de forma a evidenciar esta característica, resta-nos utilizar o flash de modo inteligente.

Uma opção é pois colocar o flash ou directamente sobre a postura ou ao seu lado, orientado perpendicularmente ao eixo da objectiva e um “tudo-nada” para lá da linha imaginária que passará pelo seu centro, paralelamente ao plano do filme. É claro que, dependendo do ângulo de iluminação do flash, assim se deverá variar ligeiramente o ângulo de incidência da luz. O objectivo é fazer com que parte da luz passe através do motivo e revele o seu “íntimo” sem descurar completamente parte da zona frontal, evidenciando também a sua textura. Tenha o cuidado de não virar o flash directamente para a câmara pois poderá não apreciar especialmente o resultado!…

Toda esta questão torna-se um pouco mais simples (ou mais complexa, dependendo do ponto de vista) se puder utilizar dois flashes, utilizando um para revelar a “transparência” e um outro para dar uma iluminação mais ténue na zona frontal, para suavizar as sombras e revelar texturas.


A chatice...


A fotografia de seres com este tipo de morfologia (linguados, solhas, pregados, raias, ratões, etc.) são a excepção que confirma a regra. Na verdade, embora seja geralmente preferível fotografar os habitantes subaquáticos (em especial os peixes e afins) ao seu nível, neste caso uma fotografia directamente de cima para baixo com uma correcta iluminação, pode ser bastante eficaz.

Vamos agora ver caso dos peixes chatos, que como o nome indica são muito chatos de fotografar! Estes curiosos habitantes dos fundos marinhos, têm a chata mania de se achatarem contra o substrato tornando a sua busca uma coisa chata e fazendo com que as suas fotos fiquem por vezes uma autêntica chatice, em que tentamos fazer crer a um chato qualquer que, no meio daquele areal está um linguado achatado!

Para não passar por esta vergonha, basta fazer incidir a luz do flash de modo rasante, fazendo com que cada mínima saliência ou depressão crie uma sombra, tornando assim evidente toda e qualquer textura e fazendo com que o seu linguado fique magnificamente recortado contra o fundo. Lembre-se de orientar o flash de modo a privilegiar a iluminação na zona da cabeça e em especial dos olhos (isto é válido para qualquer ser, pois o ponto de maior impacto de qualquer foto deste tipo são sempre os olhos, é para lá que instintivamente olhamos em primeiro lugar).


O deSafio...e a moreia


Quanto ao tal safio que conhece há muito tempo, dentro do seu fundo e estreito buraco, o desafio consiste em conseguir iluminá-lo de todo!

Esta é uma das situações em que dois flashes colocados lateralmente em posições opostas podem produzir resultados espantosos.

 Um conselho: se pretende de facto fotografá-lo a qualquer custo durante o dia, esqueça todas estas técnicas: aproxime o flash da máquina para iluminar bem a toca do bicho, dispare e reze para ficar alguma coisa decente! Se assim não fizer, e apesar de poder ver bem o safio na toca, mesmo sem lanterna, poderá acabará com uma foto de um enorme buraco negro, a respeito da qual tentará fazer crer aos seus amigos que “ali dentro estava um enorme safio, o maior que eu já vi…num buraco enorme...muito fundo...”.

Para conseguir uma foto com maior impacto, seja paciente; safios e moreias são animais curiosos que, após alguma espera da sua parte (poderá atingir os 10 minutos ou mais...), poderão perder o receio inato e sair gradualmente do seu esconderijo. Muitas vezes a melhor táctica consiste em adoptarmos uma postura calma e relaxada, com uma respiração regular, mesmo em frente ao buraco mas a alguma distância deste (1 m no máximo) para despertar a curiosidade do seu habitante.


Conclusão


Considere pois sempre a posição do seu flash antes de cada fotografia, experimente diversas posições com o mesmo motivo, tire algumas notas e tire depois as suas conclusões face aos resultados. Tente imaginar qual será o melhor ângulo para iluminar a cena diante de si e quais as partes desta que devem receber luz e, igualmente importante, quais as que não devem. Por último, e a título de dica final, lembre-se que o botão de teste que alguns flashes possuem, permite fazer disparos do flash sem gastar fotografias, o que pode ser particularmente útil para nos ajudar a sualizar o cone de luz do mesmo, fazendo alguns ajustes antes de tirar a foto.

A palavra fotografia significa “escrever coma luz” e o flash deverá ser utilizado com um pincel para colorir a magnífica cena que tem diante dos seus olhos… Boas fotos.


Rui Guerra

 

 
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