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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Dominando a luz

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Quarta-Feira, 26 de Abr 2017 . 18:44

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Dominando a Luz

Generalidades

 

Desde os tempos do inicio da fotografia, que as várias marcas tentam conceber aparelhos capazes de produzir a fotografia perfeita com cada vez menos intervenção por parte do fotógrafo. Deste modo estariam a ir ao encontro do sonho quer do leigo quer do mais experiente que, nesta ou naquela situação, pode não ter tempo de fazer os ajustes necessários e optar por confiar na máquina em maior ou menor grau.

 

Um dos aspectos a considerar, é a exposição, ou seja, o controlo que tem de ser exercido sobre a luz que atinge a película ou o sensor, de modo a produzir uma foto com a luminosidade pretendida, e não demasiado clara ou demasiado escura. Relativamente a este ponto “certo” na escala de tonalidades, é comum dizer que se está no ponto “18 % cinzento”. Este termo não significa que o resultado seja uma fotografia cinzenta, ou a preto e branco, quer dizer apenas que o motivo irá ficar com uma tonalidade média e não muito claro ou muito escuro. Como exemplo, refira-se que a relva e o azul do céu são geralmente “18 % cinzentos” e que a palma da mão de um indivíduo de raça branca é 1 EV (valor de exposição) mais clara.

 

No caso da fotografia subaquática, o azul da água a um nível médio (isto é, não é a parte clara junto à superfície nem a escura das profundezas) é também “18 % cinzento”. Desde já, convém apontar uma “falha” do sistema, que consiste em tornar igualmente “cinzento”, tanto um motivo branco como um preto! É aqui que o fotógrafo entra, compensando mais ou menos a exposição, quer através do botão do ISO da película (enganando assim a máquina quanto à sensibilidade do rolo em causa), quer através de um comando específico para compensação da exposição que irá alterar um dos parâmetros da imagem (abertura, velocidade de obturação ou luz de flash).

 

Existem dois grandes grupos de fotómetros: os de luz incidente, que medem a quantidade de luz que neles incide directamente, e os de luz reflectida, que, como o nome indica, medem a luz reflectida pelo motivo, sendo por isso influenciados pelas características deste (cor, textura, orientação relativamente à fonte luminosa, etc.).Todos os fotómetros incorporados nas máquinas são deste último tipo.

 

Esta imagem, obtida colocando a máquina na água com o barco em movimento, obrigou a que se confiasse nas capacidades da máquina, tendo-se utilizado a medição matricial no modo prioridade à abertura.

 

A luz natural

 

Analisemos em primeiro lugar como se processa a leitura da luz ambiente (luz natural) que poderá ser a única existente ou formar o cenário da imagem. Este tipo de luz caracteriza-se fundamentalmente por ser contínua, permitindo a medida da sua intensidade sempre e quando o desejemos. Note-se que uma lanterna, apesar de ser uma luz claramente artificial, também é medida do mesmo modo.

 

Como se viu, a função do fotómetro consiste em medir essa luz e, entrando em linha de conta com a sensibilidade da película/sensor, aconselhar um par abertura/velocidade mais adequado. Este “par” pode ser alterado de modo a manter a exposição constante, utilizando a sua relação de reciprocidade, ou seja, a subida em um ponto (stop) de um, implica a descida em um stop do outro. Por exemplo, se o aconselhado for f/11-1/60, os seguintes pares manterão inalterada a exposição: f/8-1/125; f16-1/30; f/5.6-1/250; etc.

 

Coloca-se então a questão: qual deles será o mais indicado?

A resposta não é simples nem única, mas depende essencialmente de dois factores primordiais: a profundidade de campo pretendida e a estabilidade necessária ou possível. Mais sobre esta questão num futuro artigo!

 

Mas, como é que é feita exactamente essa leitura da luz na cena à nossa frente? Mais exactamente, como é possível extrair um simples par de valores de uma cena tão complexa como uma paisagem, subaquática ou não, em que coexistem níveis tão diferentes de luz?

 

O modo como os vários fabricantes resolveram o problema são bastante semelhantes, apesar de algumas diferenças inevitáveis de marca para marca. Vamos aqui referir as soluções apresentadas pela Nikon, apenas por ser a marca mais utilizada em fotografia subaquática. No entanto facilmente o utilizador de outras marca notará a semelhança com o seu próprio equipamento.

 

Pode-se assim falar de três tipos fundamentais de modos de leitura de luz ambiente:

 

Medição pontual:

 

No interior de grutas, a medição pontual é frequentemente utilizada para se fazer a leitura da água na sua entrada, regulando-se posteriormente a potência e posição do flash para iluminar o seu interior.

Neste modo, a única área com importância pode ser tão pequena como 1% da área total da imagem (em máquinas reflex de gama média/baixa, esta zona corresponde ao pequeno círculo/quadrado no centro do visor). Quando se escolhe este modo, toda a sensibilidade do fotómetro (100 %) está concentrada nesse pequeno ponto. É assim possível medir, de modo preciso, qualquer zona específica do azul, o que é particularmente útil no caso da fotografia de grande angular. Pessoalmente, é a que utilizo mais vezes, pelo facto de poder medir individualmente as diferentes partes que compõem a cena e assim poder tomar a decisão que me parecer mais correcta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Medição ponderada ao centro:

 

Neste contraluz, observa-se uma falha típica da medição ponderada ao centro, com subexposição provocada pela inclusão do Sol na imagem.

Aqui a área central abrangida é maior, tendo agora aproximadamente 75% do peso da medição total, ao passo que é atribuída uma importância de apenas 25% à restante área da imagem. É assim necessário ter atenção a todo o enquadramento, dado que, uma foto tirada de baixo para cima, “segundo as regras”, em que na parte superior apareça o clarão do Sol, apesar do menor peso (25%) da zona no qual se encontra, poderá falsear a leitura global conduzindo a um motivo principal subexposto (localizado algures na zona central). Do mesmo modo, objectos escuros ou em silhueta, influirão no resultado no sentido da sobre exposição.

 

A medição ponderada ao centro (a única disponível na Nikonos V), é a favorita de muitos fotógrafos que, por força da experiência adquirida durante anos, conhecem profundamente o sistema ao ponto de saberem exactamente como compensar cada cena de modo a obterem uma correcta exposição. É também muito utilizada para a típica fotografia de um peixe com o fundo azul, já que o motivo principal ocupa (ou pelo menos deverá ocupar) uma área significativa da zona central sendo o azul da água importante mas em menor grau (de nada serve um excelente azul com um peixe preto...).

 

Medição matricial:

 

A fotografia no azul, feita em apneia ao largo da costa, exige normalmente reacções rápidas, equipamento pronto e muita paciência. Neste caso, um cardume de sardinhas era atacado por um bando de pardelas, provocando a sua separação em pequenos grupos de indivíduos. Como não levava nenhum flash, optei por utilizar um ângulo contra-picado muito acentuado para recortar os peixes contra o céu visível através da superfície. Medição matricial com prioridade à abertura.

Sendo um dos sistemas mais evoluídos presentemente, consiste em dividir a área do enquadramento em mais ou menos zonas diferentes e dispostas de modo cuidadosamente estudado, correspondendo a cada uma, um segmento do sensor medidor de luz. O número de segmentos varia consoante os modelos, e, a título meramente indicativo, a F70 e a F90X têm 8, ao passo que a F100 já possui 10 segmentos. Quantos mais existirem, tão mais precisa e ajustada à realidade será a informação obtida. Seguidamente os dados dos diversos segmentos são enviados para o CPU da máquina, o qual, baseado na zona onde se encontra o motivo principal, contraste da cena, etc., irá ignorar alguns e dar maior peso a outros, segundo um algoritmo interno. Seguidamente, por comparação com milhares de cenas arquivadas na memória, chega-se a um valor de abertura e velocidade que tem uma elevada probabilidade de ser o mais aconselhável.

 

A medição matricial é especialmente útil, em situações complicadas de luz, com grandes contrastes (fotos de ambiente só com luz natural, grutas muito iluminadas com muitas entradas de luz do Sol, fotos tipo meio-ar/meio-água, etc.)

 

A luz artificial

 

Quanto à medição da luz artificial, passa-se algo completamente diferente, pois o seu controlo é feito à custa da maior ou menor duração do clarão emitido pelo flash, sendo por isso uma forma de luz de duração curtíssima, quase instantânea, mas com uma duração controlável.

 

Os primeiros automatismos para controlarem a luz do flash, baseavam-se num sensor incorporado no mesmo (normalmente algures no or) e que ia medindo a quantidade de luz reflectida pelo motivo. São os designados flashes automáticos. Quanto se atinge um certo limite, a célula desliga o flash automaticamente. Embora à primeira vista este método possa parecer ideal, tem uma falha de concepção grave para a sua utilização vulgar no meio subaquático: é que o flash está frequentemente orientado segundo um ângulo completamente diferente daquele em que a máquina se encontra, ou a uma distância completamente distinta, originando graves erros de exposição.

 

Com o aparecimento do TTL (sigla de “Through The Lens”), a célula passou a estar colocada no interior da máquina e virada para trás, para a película. Deste modo temos um método em que não só a leitura é feita segundo o mesmo ângulo da máquina, mas, melhor ainda, mede-se a luz reflectida pelo próprio filme! Convém aqui abrir um pequeno parênteses: o TTL é pois uma função da máquina e não do flash; é ela que controla efectivamente a luz deste. Quando rodamos um botão do flash rotulado “TTL”, estamos apenas a torná-lo receptivo ao comando da câmara (via um cabo de sincronismo de 5 condutores).

 

Esta célula TTL, também pode ser constituída por mais ou menos segmentos (não confundir com os acima mencionados) e a que correspondem diferentes zonas da área da imagem. Se, por exemplo, o TTL de uma Nikonos V é ponderado ao centro (idêntico ao utilizado para medir a luz natural), já no caso das suas irmãs “terrestres” (F70, F90X, F100, etc.) é utilizado um sensor TTL constituído por cinco segmentos que analisam todo a área da imagem. A possibilidade de erro é assim menor (mas existe!!!), sendo sempre aconselhável que o motivo ocupe a maior área possível da imagem. De notar que não existe qualquer possibilidade de controlo deste sensor por parte do fotógrafo (a não ser uma maior ou menor compensação). Significa isto que, quando ligamos o flash, e o colocamos em TTL, o seu controlo será sempre efectuado pelo referido sensor e é completamente independente do modo de medição de luz (natural) escolhido (a saber: pontual, ponderado ao centro ou matricial).

 

Um erro

 

Para esta macro colocou-se simplesmente a máquina em manual, seleccionou-se 1/250, f/22 e o flash em TTL.

Por vezes ouve-se alguém dizer: “Para macro, ponho o flash em m manual com a medição matricial. É o melhor!”. Esta afirmação contém alguns erros que importa apontar. Em primeiro lugar, se se está numa situação de macrofotografia, então a luz principal (ou mesmo a única) será a emitida pelo flash. Se como vimos os vários modos de medição de luz servem única e exclusivamente para medir luz contínua (natural), então, em macro, a escolha será completamente irrelevante. Tanto mais que, em macro e estando a câmara em manual, a preocupação principal será maximizar a profundidade de campo, através de um diafragma muito fechado. Em segundo lugar há a escolha da medição matricial em concreto, ao acreditar-se que por esse facto se tem um controlo TTL do flash mais fiável. Ora como já foi referido, ela não determina nem tem influência na luz emitida pelo flash, e não há nenhuma vantagem em escolher a medição matricial em vez de qualquer outra.

 

Conclusão

 

Para se evitarem estas confusões, devemos encarar cada foto como a sobreposição de duas imagens independentes. A primeira é formada exclusivamente por luz ambiente, controlada pelas diversas opções de funcionamento do fotómetro, fornecendo dados para uma correcta escolha dum par abertura/velocidade (tendo em conta a sensibilidade da película ou sensor). Como foi referido, esta leitura ocorre antes de tirarmos a fotografia. A segunda é uma imagem formada à custa da luz emitida pelo flash e, se o mesmo for colocado em TTL, controlada por uma célula diferente e voltada para o filme, que apenas recebe informações durante a exposição propriamente dita. O fotógrafo deve pensar por etapas, ocupando-se primeiro com a componente de luz natural e seguidamente com a luz artificial. O peso relativo de cada uma delas varia consoante o resultado pretendido ou com o tipo de fotografia. Como diria Einstein : “Tudo é relativo!”

 

Boas fotos!

 

Aqui está um exemplo em que é fácil realizar-se mentalmente a separação das “duas imagens”: a formada apenas pela luz natural consiste na silhueta da entrada da gruta, da pedra em primeiro plano e do mergulhador; a formada pela luz do flash é a pedra colorida em primeiro plano (que se sobrepõe à silhueta da mesma). Foi utilizada a medição pontual para ler a luz na parte azul, máquina em manual e flash em manual.


Rui Guerra

 

 
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