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CPAS - Artigos de fotografia subaquática: Harmonia na imagem

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Terça-Feira, 23 de Mai 2017 . 21:29

 

ARTIGOS DE FOTOGRAFIA SUBAQUÁTICA

Por Rui Guerra

Harmonia na imagem

Quantas vezes não olhamos para uma fotografia e pensamos: “Tão simples e tão espectacular!”. Porque razão é que esta simplicidade aparente faz com que o resultado seja apelativo? Não é verdade que em certos casos “Menos é Mais”? Que elementos devemos incluir e quais os que se devem excluir? E como devem eles ser dispostos na área do enquadramento? Será que há algum segredo para que o peixe faça uma pose só para nós!?

Para responder a estas e outras perguntas, vamos este mês analisar mais em pormenor as questões ligadas ao modo de enquadrar e de organizar os elementos que constituem uma foto.

 

Contrariamente a uma máxima que quase sempre tentamos seguir ao longo da nossa existência, a de que “Quanto mais, melhor”, no caso da fotografia subaquática, a nossa orientação deveria ser mais a de que “Um é pouco, Dois é bom, Três é uma multidão”. Efectivamente na maioria das imagens premiadas (quer em competições/concursos, quer na simples votação imaginária que o observador lhe atribui), são apenas um ou dois elementos-chave, enquadrados de forma precisa e dispostos dum certo modo, que lhe proporcionam todo o impacto e força expressiva.

 

 

O primeiro cuidado que devemos ter é tentar visualizar a fotografia final, com o motivo ou elementos que chamaram à nossa atenção em primeiro lugar e que fizeram com que quiséssemos tirar aquela foto. São estes, e só estes, que devem fazer parte da imagem final, excluindo-se tudo o resto que não acrescente nada à ideia subjacente. De nada serve tentar mostrar tudo o que se viu durante o mergulho duma só vez, pois o resultado será uma enorme interrogação por parte do observador que não identifica imediatamente o motivo principal (que deve existir sempre!). margin-bottom: 0px">  

Seja um peixe a comer, um nudibrânquio a deambular, um mergulhador a explorar um naufrágio ou um coral bonito, há sempre uma forma melhor que outra para serem enquadrados, e essa pequena diferença pode transformar uma foto banal numa imagem cheia de força e dinamismo. Até o fundo, ou as rochas vizinhas devem ser excluídas se não fizerem parte integrante daquilo que queremos realmente mostrar, para já não falar evidentemente do outro mergulhador que ía a passar ou dum qualquer cabo dum aparelho de pesca próximo. Tudo o que se incluir por descuido só irá denegrir e fraquejar a fotografia. Já pensou porque é que, por vezes, um fotógrafo experiente pode “perder” tanto tempo para tirar uma fotografia a uma simples gorgónia? Pois é, apesar dela não fugir nem reagir de modo evidente ao “paparazzi” próximo, o problema reside na envolvente que se quer excluir a todo o custo ou na procura dum modo harmonioso e inovador de retractar essa mesma gorgónia. Surgem assim toda uma série de regras e práticas que têm o mesmo objectivo: mantendo constantes os elementos a enquadrar, proporcionar a maior harmonia e força possível à imagem através do seu escrupuloso ordenamento e orientação entre si. São as Regras de Composição de Imagem.

Com as suas raízes no tempo dos grandes mestres da arte (da pintura em particular), estas regras eram nesse tempo um tipo de conhecimento quase empírico, fruto do arguto poder de observação e da experiência do artista. Marcavam e marcam ainda hoje o modo como cada um expressa o seu modo de ver e interpretar o mundo, constituindo uma “assinatura” mais ou menos marcada nas diversas obras. Mesmo nos tempos que correm, e sem grandes exoterismos, cada fotógrafo tem normalmente um estilo próprio que se reconhece regularmente nas suas imagens. Essa assinatura advém do simples processo de evolução e aprendizagem que normalmente começa pelo tentar imitar os “grandes”, fotógrafos de renome cujo trabalho se admira e tenta seguir, conjuntamente com a aplicação de algumas regras simples.

 

As Regras de Composição de Imagem, mais não são que uma forma sistemática e algo rígida, mas de fácil compreensão, de tirar o maior partido possível de cada situação e/ou motivo, seja este um naufrágio ou um simples e pequeno peixe.

Vamos então enumerar algumas:

 

REGRA DOS TERÇOS

 

Divide-se a área do fotograma em três partes sensivelmente iguais, através de duas linhas, tanto na vertical como na horizontal. A estas linhas dá-se o nome de “linhas de força” e aos pontos de cruzamento “pontos fortes” da imagem. È sobre eles que devem ser dispostos os diversos elementos para um maior equilíbrio, evitando-se assim a tendência de se centrar tudo quanto se fotografa, como é apanágio de quem se inicia em fotografia.

 

DIAGONAIS

 

Desta vez as linhas de força serão as diagonais imaginárias do fotograma, sobre as quais podem ser colocados o fundo marinho, paredes rochosas, peixes, invertebrados, etc. A ideia aqui é que com este “inclinar” de motivos que poderiam estar originalmente na vertical ou horizontal, consegue-se um muito maior dinamismo e sensação de perspectiva que melhoram significativamente o resultado. É particularmente eficaz na fotografia de peixes e afins, sendo de resto muito fácil de empregar.

 

Para mostrar todas as cores do corpo deste nudibrânquio, optou-se por fotografá-lo de cima (indo contra a regra seguinte, mas inclinando a máquina para o colocar sobre uma diagonal e deixando mais espaço livre à sua frente, conforme a Regra do Movimento.

 REGRA DO MOVIMENTO

 

Aplicável a tudo o que se move ou seja susceptível de se mover em determinada direcção, consiste simplesmente em descentrar o motivo principal, deixando-lhe mais espaço à frente do que atrás. Tem-se assim a sensação de que ele está a entrar na imagem e não a fugir dela. Referira-se a este propósito que, salvo raras excepções, a típica fotografia de um peixe fotografado de lado e completamente centrado, tipo quadro, não é de facto a forma mais impressionante de fotografar estes seres. Pelo contrário, se este estiver completamente de frente, virado para a objectiva, aí sim, é altura de o centrar o mais possível, inclinando um pouco a máquina (diagonais…) e enchendo quase por completo o visor (regra seguinte…).

Também no caso dum mergulhador/modelo, deve ser deixado mais espaço na direcção em que este estiver a nadar ou a olhar.

 

 

 

 

FOTOGRAFAR AO NÍVEL DO MOTIVO

 

Esta é sem dúvida a regra mais intuitiva de todas e que constantemente aplicamos no nosso dia-a-dia, sem que contudo a apliquemos directamente à fotografia. Basicamente diz que se deve descer ao nível do motivo e fotografá-lo de frente (como se imaginariamente se estivesse a conversar com ele).

Quando encontramos um amigo, paramos frente a frente para conversar; se quisermos que uma criança nos preste a devida atenção, baixamo-nos a olhamo-la olhos nos olhos enquanto falamos. Pelo contrário, já pensou porque é que nos tribunais (ou mais prosaicamente numa sala de aula) o juiz/professor estão normalmente numa posição mais elevada, de modo a marcar uma certa posição de “soberania” e conseguindo também uma melhor atenção por parte da assistência? E num palco, já pensou no que se perderia se o espectáculo decorresse numa área mais baixa que a assistência, tipo buraco!?

É pois de suma importância que se dê o devido relevo aos nossos motivos para com isso conseguir uma maior impressão junto do público.

 

Ao fotografar-se esta textura houve o cuidado de seleccionar uma zona o mais homogénea possível. Originalmente fotografada na horizontal, optou-se à posteriori apresentá-la na vertical, dada a notória desigualdade entre o lado esquerdo e o direito, no formato original.

PADRÕES

 

Em certo sentido, esta regra poderia ser descrita como “Do caos nasce a ordem”. O objectivo é procurar a “imagem dentro da imagem”, aproveitar parte da cena/motivo que está perante nós para obter uma foto melhor que a que se conseguiria com a cena/motivo na sua totalidade.

Os exemplos abundam, bastando um olhar mais atento para se conseguirem composições interessantes. Aqui, as objectivas com um ângulo de visão mais fechado são talvez as mais polivalentes, permitindo isolar as zonas mais interessantes. Quer seja a textura de uma estrela-do-mar, as escamas dum bodião a dormir ou parte de um cardume de tainhas, o certo é que é necessário procurar atentamente as zonas mais fotogénicas que reproduzam um padrão interessante.

 

 

 

 

 

 

 

LINHAS CONVERGENTES

 

Uma técnica muito utilizada em fotografia de publicidade, consiste em utilizar certos elementos da imagem para conduzir o olhar do observador até a um ponto forte. O exemplo típico e de fácil compreensão é o caso da estrada de montanha que serpenteia desde o primeiro plano até convergir numa longínqua casa isolada. Debaixo de água, embora menos óbvios, também existem elementos que podem ser utilizados de modo análogo, como p.ex. o mastro de um naufrágio, uma esponja tubular, uma laminária, etc. Como ponto forte para o qual é conduzido o olhar do observador, podemos utilizar o modelo, um cardume ou o simples clarão do Sol. O objectivo é sempre interligar os principais elementos constituintes da foto.

 

MOLDURAS E SIMETRIAS ESFÉRICAS

 

Uma forma eficaz de enquadramento, consiste em emoldurar um elemento recorrendo à utilização de um outro. É o caso da entrada de uma gruta através da qual se vê um cardume no exterior, o buraco duma rocha a emoldurar um mergulhador ou uma vigia dum naufrágio através da qual se espreita para o outro lado. O elemento-chave deste tipo de composição é a simetria mais ou menos esférica da moldura que ocupa grande parte da imagem.

Do mesmo modo, também se pode tirar partido da simetria esférica dum ouriço, duma anémona ou dum cardume, preenchendo com ele a maior parte da área existente. Repare-se que aqui, contrariamente à Regra dos Terços em que se pretende descentrar, procura-se exactamente o contrário, na condição de se conseguir ocupar uma parte significativa da fotografia.

 

FOTOS VERTICAIS OU HORIZONTAIS

 

Este espirógrafo encontrava-se numa posição completamente vertical, mas para aumentar o dinamismo da foto, optou-se por enquadrar apenas a sua parte superior, ao alto e inclinando a máquina de forma a colocá-lo sobre uma das diagonais.

Esta é sem dúvida a “regra” mais incómoda de se aplicar, mas é também uma das mais importantes! A escolha do enquadramento mais apropriado deverá ser sempre função do motivo principal e/ou do destino que se pretenda dar à imagem, embora com a tecnologia digital de hoje em dia, facilmente se pode obter um enquadramento diferente do original à custa da perda de certas partes da imagem.

Apesar disto, para quem tem menos experiência, a tentação de fotografar sempre na horizontal é grande, tanto mais que parece que os equipamentos foram desenhados para trabalhar desse modo. Se se utilizam dois flashes, pior ainda, particularmente junto ao fundo ou no interior dum naufrágio. Cada vez que se muda de orientação, é quase sempre necessário reposicionar os ditos, uma enorme perda de tempo, particularmente quando se utilizam braços articulados que parecem ter sido feitos para tudo menos para facilitar a vida ao fotógrafo! Existem no mercado uns suportes que facilitam grandemente esta tarefa, nos quais o simples premir de um botão permite rodar a máquina sem alterar a posição dos flashes.

Mesmo para os utilizadores de máquinas digitais, é importante que optem logo à partida pelo melhor enquadramento porque se uma foto horizontal for posteriormente utilizada numa capa de revista, o corte de margens (se possível) para a transformar numa vertical, implica obviamente o corte de pixels, o que aliado ao necessário redimensionamento dará um resultado de baixa qualidade (dependendo, claro, das capacidades da máquina). De um modo geral, uma foto vertical produz um maior impacto que a sua equivalente horizontal.

 

Em suma, tornar uma imagem apelativa do ponto de vista estético, depende não só do tipo de motivo/s mas, e principalmente, do modo como ele é retractado, da sua posição espacial na imagem e da sua relação com os restantes elementos. Lembre-se que uma fotografia extraordinária pode ser obtida com um motivo vulgar, mas que um motivo raro não é garantia de nada, fotograficamente falando.

 

Boas fotos!
Rui Guerra

 

 
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